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De cético a animado e sem urticária …

Quando fui convidado para tomar parte num encontro entre empresários faialenses e a Comissão de Economia, Inovação e Obras Públicas (CEIOP) da Assembleia da República, que decorreu na manhã do dia 11 de junho de 2018 na Biblioteca João José da Graça, comprometi-me a comparecer sem, todavia, me achar muito entusiasmado. Talvez porque desconhecia o propósito concreto da reunião, ou por estar contagiado pela descrença generalizada, quiçá injusta nalguns casos, na (in)ação dos agentes políticos.

Saí da reunião animado. Entre outras por três razões objetivas:

a) A presença significativa de empresários faialenses – à volta de meia centena – demonstrou que existe uma consciência formada de que é preciso lutar contra um conjunto de obstáculos que estão a impedir o desenvolvimento económico e social da nossa terra;
b) Os deputados da República deixaram a notória impressão de que estão conscientes do grave problema das acessibilidades à ilha do Faial, especialmente por via aérea;
c) O presidente da Câmara Municipal da Horta, que, em primeira e última instância, é o garante dos interesses da ilha do Faial, especialmente nos momentos de maior dificuldade, protagonizou, cumprindo em absoluto o seu papel, o momento decisivo do certame ao interpelar com uma demanda responsabilizadora os deputados, colocando-os quase perante a obrigação de aproveitarem as circunstâncias presentes para contribuírem de forma ativa para eliminar os constrangimentos relacionados com o Aeroporto da Horta.

Outros motivos, de natureza subjetiva, também me animaram. Saliento, a título de exemplo, apenas alguns:

O Professor Rui Santos “abriu as hostilidades” balizando, de forma clara, o essencial da questão: a (in)operacionalidade e a (in)segurança do Aeroporto da Horta.

É que – disse ele – a má gestão da SATA é um percalço político que não tardará a ser ultrapassado. Agora, a questão estrutural e essencial é despenalizar a pista do aeroporto porque será isso que evitará cancelamentos e divergências, o handicap que influencia diretamente a economia sob diversos pontos de vista, nomeadamente a imagem do destino turístico em apreço.

Para mim a melhor intervenção no encontro pertenceu ao Prof. Vítor Medeiros, que hábil, serena e firmemente – ao seu estilo – resumiu brilhantemente as nossas dificuldades.

Antes de o fazer lembrou que em 2016 (e não quis apresentar mais números para não demorar-se) na rota «territorial» Lisboa-Horta, à responsabilidade da Azores Airlines, não se realizou 10% das ligações. Uma fatalidade para qualquer destino turístico, para mais um pequeno destino como o nosso.

Vítor Medeiros lembrou que ao Faial têm sido subtraídos empreendimentos de grande envergadura, nomeadamente – estou a citar de memória – a radionaval e a fábrica do peixe, que não levaram a qualquer plano de contingência. Porém, a nossa ilha é a segunda do arquipélago que mais exporta.

Foi uma maneira engenhosa e inteligente de dar a entender que – e vou fazer uma nova citação, de forma livre – a gente tem feito a nossa parte e estamos aqui a aguentar, agora é preciso que os senhores [deputados] nos dêem uma ajuda!

O arquiteto e empresário Paulo Oliveira, da forma pragmática a que nos habituou nas suas intervenções públicas, também pôs o dedo na ferida, falando das consequências nefastas, a diversos títulos, das divergências, cancelamentos e bagagens não transportadas, que levam a que os nossos visitantes cheguem arreliados e saiam aborrecidos, que é o pior que pode acontecer a um destino turístico cuja imagem de marca, na melhor tradição faialense, é a hospitalidade.

O presidente da Associação de Produtores de Espécies Demersais dos Açores (APEDA), Jorge Gonçalves, voltou a bater no ceguinho, insistindo nas perdas constantes de mais-valia dos nossos produtos pesqueiros e da floricultura por causa dos atrasos no transporte.

Alguém acrescentou (não me lembro quem foi) que não estamos a perder dinheiro todos os dias, mas a cada hora!

O deputado Bruno Dias, do PCP, foi o que demonstrou maior conhecimento da nossa realidade e, alertado por Dejalme Vargas, do Grupo do Facebook Aeroporto da Horta, sublinhou uma, para ele, questão nova: a capacidade de carga da pista, ou seja, o peso que as aeronaves exercem sobre o piso, cujo coeficiente deve atingir 60, mas que é de 39. Só a tolerância da autoridade nacional da aviação (ANAC), porque há poucas frequências no Aeroporto da Horta, é que permite que ainda aterrem certos aviões, precisou Dejalme Vargas, cujas palavras, esclarecidas, foram no seguimento da luta que em encetado pela melhoria da operacionalidade daquela infraestrutura.

Em suma e avaliando pelas reações obtidas no final, estou convencido que esta não foi mais uma daquelas reuniões para inglês ver. Procuro apenas com este texto dar o tom das conversas e, de certa maneira, sintetizar alguma informação sobre estes assuntos que, de tão discutidos, por vezes surgem perante a opinião pública como uma amálgama de teorias e opiniões difíceis, pelo seu número e diversidade, de interpretar e compreender.

Insistindo, os empresários faialenses responderam à chamada e muitos não falaram porque a reunião teve que ser abortada por causa da agenda dos deputados.

Quem, como já ouvi nos bastidores partidários (inclusivamente nos do meu partido), ou das associações empresariais e outras ou em tertúlias de bem-falantes, principalmente oriundos de ilhas maiores, pensa e afirma que no Faial não existe massa crítica, se ali estivesse, teria tido a resposta contrária: além de massa crítica, temos massa cinzenta! Pena é que só excecionalmente aconteçam estes momentos.

A reunião, surpreendentemente, não foi política no sentido sectário do termo, apesar de os deputados da Comissão representarem quase todo o espetro partidário parlamentar, o que contribuiu claramente para o bom senso e proveito com que o debate ocorreu.

Apesar de tudo, permito-me um remoque, sem querer deslustrar a forma consensual e elevada como tudo se processou.

Ouvido o deputado Heitor de Sousa do Bloco de Esquerda fica-se com a impressão que as privatizações estão na origem de todos os males que vêm ao mundo, nomeadamente as da ANA e da TAP. Esquece-se, porém, que a Azores Airlines é do Estado e conhece-se poucas empresas mais mal geridas do que a nossa «companhia de bandeira» (regional).

Aliás, ficámos todos a saber que a Administração da SATA não recebeu a CEIOP alegando que os respetivos presidente e diretor financeiro estão «de baixa».

Custa-me perceber como é que, estando os deputados em causa em missão de Estado nos Açores, uma empresa tutelada pelo próprio Estado tenha o desplante de ignorar a sua presença.

Isto leva-me a uma conclusão óbvia, que os representantes estatais no Faial ainda não quiseram perceber e que se resume no aforismo: quem quer vai, quem não quer manda, ou seja, mais responsável do que Paulo Menezes é quem o tutela, não se compreendendo por isso a urticária de alguns quando se pede a sua responsabilização.

Resta-nos esperar que haja um médico que prorrogue a baixa de Paulo Menezes!

Souto Gonçalves

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