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Bem-vindos à geração rede social

É hábito recorrente, chegando-se a determinada fase da vida, sentir a tentação de tecer comparações com as gerações mais novas, as suas atitudes, valores e moral praticadas. Eu, no auge dos meus 23 anos, não sou garantidamente um ancião mas começo a querer expor alguns comentários quanto ao que me rodeia. E é deste meio termo que me atrevo a expor uma preocupação pessoal perene.

As possibilidades que as redes sociais trouxeram foram maioritariamente positivas, mas como em tantos outros casos a utilidade diminuiu à medida que mais pessoas se foram rendendo às virtudes do mundo virtual (facilmente construído e manipulado por nós próprios) e o tempo que se despendeu nestas aumentou.

Nunca como agora a informação esteve tão facilmente ao alcance e, paradoxalmente, nunca foi tão mal aproveitada. As redes sociais e a internet tornaram-se uma forma de limitar informação, restringimo-nos ao que nós queremos, aos conteúdos que gostamos – apenas e só. Se uma página não nos agrada não abrimos, sentimo-nos com o poder de decidir que informação consumimos e acabamos por, quais cavalos de anteolhos colocados, apenas ver a linha reta de pensamento que nos impusemos. Mas sem entrar em contacto com o diferente e com o que não nos identificamos será possível desenvolver espírito crítico?

A geração Z, a dos que por cá apareceram entre 1995 e 2010, cresceu com internet acessível, com as respostas imediatas – bastando procurar no Google – e sem a necessidade de perguntar a alguém mais velho o que quer que seja. Não conseguem viver sem o telemóvel ou internet. Para estes, a televisão é uma plataforma ultrapassada, e quando a utilizam não o fazem para seguir em tempo real as produções de cada canal mas sim programas previamente por eles escolhidos.

Caem no erro de se achar senhores do seu destino porque tem o mundo no bolso, porque os mais experientes não tem a facilidade de utilização deste aparelhos que eles têm, não percebendo que estão a trilhar um caminho limitado pela suas próprias restrições.

A importância que os likes assumiram na vida da geração mais recente; de se partilhar todo e qualquer conteúdo sobre o que se faz ; e mais recentemente de fazer diretos para um larga audiência – algo que há uns 10 anos apenas a televisão conseguia – criaram nestes um culto narcisista que proporções dantescas. Estar presente nas redes sociais é a forma de sentirem que são apreciados e valorizados, de se criar a falsa ilusão de que tudo o que fazem no seu dia é útil para a vida dos outros. É, diria eu, a forma errada de procurar a afirmação pessoal.

De repente, a aprovação dos outros tornou-se importante em todos os pontos do dia e para a nossa vida pessoal, privada, e única.

Ao invés de se partilharem fotos acomodados no sofá, com a mantinha e a pantufa foleira, e o hashtag #aborrecido , porque não saem de casa? Ou leem um livro? Ou vão visitar um amigo que não se vê há tempo? Ou jogar o que quer que seja?

 Não, isso daria muito trabalho, sendo preciso se mexer e conviver cara-a-cara com pessoas. Infelizmente essa capacidade tão humana, tão distintiva entrou em desuso.

As conversas de café são permanentemente interrompidas por selfies de grupo, publicações no Instagram, mensagens, pausas eternas com um bando de marmanjos fixados ao telemóvel sem conseguirem tecer uma palavra, sem articularem argumentos ou meterem à prova a sua cultura e estimularem a cultura dos outros.

Pode parecer coisa de velho saudosista, mas temo, e devíamos todos temer, pelo rumo da Geração Z. Têm um potencial gigante, mas ficarão sempre aquém do que poderiam ter sido pelo egoísmo, falta de valores e falha descarada de espírito crítico. Tinham tudo para serem revolucionários mas tornaram-se nos mais facilmente manipuláveis.

Culpa da televisão? Também. Ao se ter deixado que em horário nobre se glorifiquem ilustres patetas que fazem pouco de si estamos a dizer à sociedade que os comportamentos animalescos de reality show são socialmente aceitáveis – e não podem ser, jamais!

Aproveitar o potencial das tecnologias não deve ser torna-las parte inseparável da nossa vida, deve sim ser uma ajuda em certas circunstâncias. Nada contra partilhar umas fotos, mas tudo contra tornar cada página pessoal um templo de culto a si mesmo.

As crianças já não correm na rua nem os pais precisam de chamar por eles  – muito provavelmente estão todos sentados a entreter os olhos com o que quer que seja.

Nós somos muito melhores que isto. Enquanto fixamos um retângulo perdemos uma imensidão de oportunidades e memórias que uma câmara não consegue captar.

André Goulart

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